É um céu todo em mel
numa delicada canção de meio-dia
de uma hora de luz
Eu gozo todos os meus amantes em um só
e sinto nos olhos de um,
todos os que me foram perdidos num tempestade
Vento noturno que revolve a vida
numa hora que ainda não desceu seu cruel martelo
Batem cruéis as horas finais de um amor
que nasce com a boca costurada, de folhas mortas
Ah, meu amor - eufemístico panorama - é o nosso
Descortinada a luz na ausência de sombra
o Sol refulgia no nublado mistério dos homens
pequenos; faço no curto das unhas, as garras de bicho
Te amo e cantam os pássaros que me levam
O mar é todo mel
Melífluo destino que me ventam os sons alados
arautos coloridos do amor que é desde sempre tornado
Subámos sozinhos, com os dois pés na água
Até aonde a aurora de sua melodia nos levar
sábado, 7 de abril de 2012
segunda-feira, 12 de março de 2012
Aos maus amantes
Aos maus amantes
reconheço a grande herança
no que toca a leveza dos meus dedos
em costurar-lhes à respectiva lembrança
um feitiço antigo e doloroso
o qual pago com o sal do suor
e de outras lágrimas
Tenho minhas palavras e tenho memória
tenho todo um pequeno teatro do amor em mãos
tenho uma ampla oportunidade de lhes consertar as faltas
dotá-los de gênio e malícia quando não a tiveram
muní-los da força que lhes esvaiu dos lábios
quando do seu não e do seu beijo
talhá-los à forma das vastas legiões que sempre dominaram meus sonhos desde a infância
- Só eu aterro fogo às minhas culturas mortas e violento as minhas mulheres e lhes privo de seus homens. Vocês são quem me assistem calados ser o amor todo que vocês não puderam.
reconheço a grande herança
no que toca a leveza dos meus dedos
em costurar-lhes à respectiva lembrança
um feitiço antigo e doloroso
o qual pago com o sal do suor
e de outras lágrimas
Tenho minhas palavras e tenho memória
tenho todo um pequeno teatro do amor em mãos
tenho uma ampla oportunidade de lhes consertar as faltas
dotá-los de gênio e malícia quando não a tiveram
muní-los da força que lhes esvaiu dos lábios
quando do seu não e do seu beijo
talhá-los à forma das vastas legiões que sempre dominaram meus sonhos desde a infância
- Só eu aterro fogo às minhas culturas mortas e violento as minhas mulheres e lhes privo de seus homens. Vocês são quem me assistem calados ser o amor todo que vocês não puderam.
Avalon
Não mais ilhado
envolto na parca bruma
Eu sigo o torto pé,
o oblíquo dos ramos e dos ventos
Perdido na terra das fadas
eu me recuso a dormir
e escapo de minha redentora alegria
- Houve um tempo em que tudo me era longe
eu era uma pequena rocha insígne em sua preciosidade
agora, cioso de meus dias como quem tece uma mortalha...
- Houve também aqueles que me cantaram a morte longínqua
e a eles eu sempre saudei como que em desconforto de lhes voltar a vista.
Ele viu os fantasmas em grandiosoas aparições, mas nunca lhes comunicou o seu grande medo. Era sozinho e o sabia perfeitamente pois nunca o deixava de sê-lo - e assim, experimentava a alteridade em todo o seu terrível e vazio duplo obrigatório: fizera do mundo a hidra de muitas cabeças e fizera também muitas hidras. Um dia, ele talvez quebre o espelho e veja que existe vida e que até agora ele não foi vivo.
No passo dos dias em noites
e das danças em quedas
cascateia a luz da aurora
que o brilho nos olhos adivinhou
quando me fora sentenciada a grande ordem
Ao seu comando,
fiz me frio e desapegado
matei tudo em mim que não servia
provei da minha carne
e me embriaguei do fel
que me conservara até então imóvel
(em âmbar, pré-histórico antes de antigo)
Daquele asco,
quedei em sonhos
sequências vivas
de rodas medievais
e outras torturas atuais
fogo e fogo; fogo em púrpura
católico em rigores
como um inverno às avessas
Perdi-me em desertos floridos
e campos de mares revoltos,
prados de relva rachada e seca
sem nenhum dia em que a luz não incendiasse numa estrela já morta
os astros, lá longe, brincavam em sua luz com a minha
me aturdindo em minha pequenez
e me despertando presa ciente das suas
Por fim, me despedi das minhas mãos
dos meu trejeitos
da minha voz
Cortei eterno as matas densas
e no sujo e no urbano perene dos homens
fiz minha casa num momento
que ressoa até agora nos ouvidos
como um gongo ao qual espero paciente
o fim do compasso lerdo e claudicante
- Maturo-me em um pulso mais forte e num tom mais agudo
Acabo a elegia de um segundo que divido comigo mesmo
num instante baixo e mesquinho de trânsito congestionado
envolto na parca bruma
Eu sigo o torto pé,
o oblíquo dos ramos e dos ventos
Perdido na terra das fadas
eu me recuso a dormir
e escapo de minha redentora alegria
- Houve um tempo em que tudo me era longe
eu era uma pequena rocha insígne em sua preciosidade
agora, cioso de meus dias como quem tece uma mortalha...
- Houve também aqueles que me cantaram a morte longínqua
e a eles eu sempre saudei como que em desconforto de lhes voltar a vista.
Ele viu os fantasmas em grandiosoas aparições, mas nunca lhes comunicou o seu grande medo. Era sozinho e o sabia perfeitamente pois nunca o deixava de sê-lo - e assim, experimentava a alteridade em todo o seu terrível e vazio duplo obrigatório: fizera do mundo a hidra de muitas cabeças e fizera também muitas hidras. Um dia, ele talvez quebre o espelho e veja que existe vida e que até agora ele não foi vivo.
No passo dos dias em noites
e das danças em quedas
cascateia a luz da aurora
que o brilho nos olhos adivinhou
quando me fora sentenciada a grande ordem
Ao seu comando,
fiz me frio e desapegado
matei tudo em mim que não servia
provei da minha carne
e me embriaguei do fel
que me conservara até então imóvel
(em âmbar, pré-histórico antes de antigo)
Daquele asco,
quedei em sonhos
sequências vivas
de rodas medievais
e outras torturas atuais
fogo e fogo; fogo em púrpura
católico em rigores
como um inverno às avessas
Perdi-me em desertos floridos
e campos de mares revoltos,
prados de relva rachada e seca
sem nenhum dia em que a luz não incendiasse numa estrela já morta
os astros, lá longe, brincavam em sua luz com a minha
me aturdindo em minha pequenez
e me despertando presa ciente das suas
Por fim, me despedi das minhas mãos
dos meu trejeitos
da minha voz
Cortei eterno as matas densas
e no sujo e no urbano perene dos homens
fiz minha casa num momento
que ressoa até agora nos ouvidos
como um gongo ao qual espero paciente
o fim do compasso lerdo e claudicante
- Maturo-me em um pulso mais forte e num tom mais agudo
Acabo a elegia de um segundo que divido comigo mesmo
num instante baixo e mesquinho de trânsito congestionado
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Vida doméstica
Recostado num canto do quarto, ajustando as costas nos lados das paredes, em meio aos lagartos, ele observava - não sem um certo horror - o lugar desolado em que ele se encontrava agora. A casa de proporções e mobiliário pobres, seu pó e inquilinos secretos e inumeráveis. Talvez, sequer fossem lagartos, de fato, mas lagartos era tudo que sua vista alcançava em suas campanhas medrosas por tão desterradora realidade. Que luz medonha não era aquela que trazia tais imagens para seus olhos e fazia de seu tato um eterno mentirosos dos infindáveis terrores que o cercavam lá.
Andavam rápidos pelas paredes. Trespassavam os limites que antes fixavam a casa como quebra do interno ao externo. Chegavam tanto pelo telhado quanto pelas janelas e pelas frestas da porta, dependendo do tamanho. Independentemente do tamanho, mesmo um lagarto pequeno já era lagarto demais. Algo como uma miopia psicológica o impedia de observá-los com sincero afinco. Tudo que sabia deles era seu jeito desengonçadamente veloz de se locomover por onde ele não o poderia, sua cor escura, matizada entre o verde e o azul bem fortes e fechados até o preto. Talvez, tivessem até dois olhos e um coração. Mas não precisariam desse tipo de descrição enquanto habitassem a casa - e a sua vida - como legião. Estava sitiado.
Pó e lagartos. Só isso acompanhava os seus dias naquela casa. Às vezes, se estressava tanto com seus pequenos solavancos de espanto pela casa, em seus procederes de manutenção paliativa - que mais lhe permitiam esquadrinhar as regiões dominadas pelos répteis do que realmente zelar pela habitação - com os insetos mortos e as carreiras desesperadas dos escamosos rastejantes e sem idade, quando ele dava por abrir uma porta que até então parecia uma dispensa eternamente fechada, que ele esquecia de qualquer outra vida que não fosse aquilo.
Que não fosse dormir num colchão velho e furado e vendo no preto dos olhos fechados, milhões de pequenos olhos negros que brilhavam estranhamente no candeeiro de seus medos infantis, ou então, sentindo as cócegas nervosas que seu corpo lhe simulava no suava contato com o lençol furado, ele se punha facilmente a pensar em pequeninas e infinitesimais aracnídeos subindo por suas pernas debilmente descobertas. Quando terminassem de tomar a casa, tomariam a sua carne e lhe despedaçariam em seu sono, que nas suas elaboradas elocubrações, mais se assemelhavam à vigílias de fieis de corações retorcidos pelo ódio das gentes mesquinhas de províncias renegadas de deuses e cheias de demônios antigos e domésticos.
Sabia ele se torturar muito bem também. Não ignorava que se não lhe tivessem sido infligidos tantos infortúnios inesperados para um homem de compleição tão citadina quanto a dele, não hesitaria sua imaginação de lhe pregar truques com os mesmos fantasmas de sempre. Secretamente, sabia ele, seu corpo regojizava no inesperado pontapé desavisado que ele desferia, amiúde, a um lagarto apalermado, e sua mente se contorcia feliz, em ganas de prazeres expansivos e tropicais, no seu lento labor de vingança contra as aranhas e suas moradas insidiosas em tramas intricadas para afogá-las e esmagá-las - com sorte, adivinharia ainda como queimá-las também.
Sua única posse e território dentro daquela casa era a singela mala de viagem que ele trouxera consigo e que guardava suas mudas de roupa. Enquanto ela permanecesse um reduto seguro, no qual ele poderia tocar sem medo nos tecidos, sem aventar pela possibilidade de aranhas microscópicas em suas cuecas, ele poderia ser feliz, mesmo que inconscientemente. Lá, ele vivia o biológico da vida, sua eterna contenda e vilania generalizada; seu ódio era indiferente e seria passado a seus descendentes se ele não fosse um desses homens de vida obviamente estéril.
Era uma distração inocente que lhe ocupava os dias, e, às vezes, dependendo do quão bem imergisse no jogo, era capaz de presidir sobre a vida e a morte dentro daquelas paredes brancas e cobertas de seda milenar e tóxica. Fazia breves incursões por todos os cômodos da casa, todos os dias, para manter a moral alta perante todos as pequenas facções dominantes de cada quarto e manter seus números estáveis, sem tentar destruir seus focos, apenas evitando sua difusão repentina para uma zona ainda não ocupada.
Ao mesmo tempo, mantinha a maior parcela de sua energia e imaginação para a sala de estar, onde, por razões a ele desconhecidas, logravam residência muito menos lagartos nas paredes descascadas e também não se encontravam armários para o reduto de insetos das profundezas do pesadelo cotidiano. Munido de um balde d'água, uma vassoura e dois panos e um par extra de sandálias velhas - com os quais se deparou ainda na chegada à casa, empoeirados, por cima de um tapete deslocado no lado da porta - ele proclamava guerras aos donos de direito daquela morada planejada pelos homens aos animais. Já tinha conseguido para si um pequeno quadrado onde antes ficava o velho sofá empestado de bichinhos horríveis e reduzira quase que todo o resto do cômodo a uma área de forçosa paz com os lagartos, que por ela transitavam, agora, apenas pelas paredes e não mais pelo chão. A mobília fora drasticamente descartada tendo em vista seu potencial de fortaleza para toda sorte de criatura macabra e enxame que pudesse abrigar.
Acabava por nomear alguma aranha, ou lagarto, particularmente mal encarado ou por demais estático, por alcunhas militares. Ele era um guerrilheiro nas montanhas ermas em que se encontrava. Seu outrora etéreo mundo de brumas e liláses dera lugar a uma terrível e preciosa quimera: uma guerra que ele jamais conseguiria vencer contra a própria natureza que lhe abrigava de pesadelos ainda mais insondáveis.
Qual não foi sua felicidade quando encontrou uma marreta - quase uma maça medieval - nas rápidas escaramuças por um dos quartos perdidos por ora! Pôs-se a correr pela casa e destruir tudo que julgasse inútil ou traiçoeiro a seus intentos modestos de uma habitação sem visitantes indesejáveis. Com esmero e paciência, e, há quem diria até, não sem uma dose de técnica espontânea, capaz de inspirar sentimentos elevados em quem a observasse em ação, ele caía por sobre o mobiliário incauto tal qual tomado pela fúria com a qual um teutão ansiava por tomar os deuses como seus pares. Destruiu armários velhos na suíte, se livrando dos escombros com auxílio de uma perigosa estratégia envolvendo fogo e álcool de uma pequena dispensa de bebidas que ele se deparara ainda outro dia, inesperadamente. O plano imbecil funcionava porque a vodka era barata, a cachaça era farta e mesmo o mobiliário original que ele tencionava reduzir já era bem modesto para que o fogo não se alastrasse pela casa contanto que fosse ele rápido o bastante para controlá-lo uma vez concretizada a empreitada. Investia também nesse tipo de tática, pois julgava que de alguma maneira isso devia afetar seus adversários inumeráveis, invisíveis e onipresentes.
- Eu vou queimar todos vocês e suas dinastias condenadas, ele ria em meio a pequenas labaredas caseiras. Seu único medo era o de sufocar, pois as janelas abertas não davam muita vazão a fumaça que se fazia. Mas depois do terceiro armário queimado e de uma cama de casal quebrada, seu furor pirotécnico arrefeceu. O momento da ofensiva passara e agora, apesar do quadrado de entrada da sala permanecer o único lugar no qual ele se sentia a salvo, já podia contar com um quarto (um quadrado nu, guarnecido por uma cama no seu centro - toda a distância possível das paredes e de seus passantes - que contava com o já mencionado colchão velho e o lençol furado) e um banheiro, que por algum milagre de uma deidade local e generosa, funcionava magicamente, apesar de não ter água quente disponível.
Ainda assim, as imagens de seres microscópicos, rápidos e indiferentemente impiedosos correndo por todos os cantos de sua visão o solapavam constantemente em seus cada vez mais frequentes devaneios e delírios vespertinos. Visualizava, sentindo uma certa mescla de pavor e graça, seus braços alvos diligentemente lavando os pratos certa noitinha, cantando uma singela canção, confortavelmente um tom ou dois abaixo do original, quando uma aranha se precipitaria de sua teia estendida desde o início dos céus, passado por algum pequeno e imperceptível furo do teto, para se propulsionar dentro de sua boca em desavergonhada abertura musical.
Andavam rápidos pelas paredes. Trespassavam os limites que antes fixavam a casa como quebra do interno ao externo. Chegavam tanto pelo telhado quanto pelas janelas e pelas frestas da porta, dependendo do tamanho. Independentemente do tamanho, mesmo um lagarto pequeno já era lagarto demais. Algo como uma miopia psicológica o impedia de observá-los com sincero afinco. Tudo que sabia deles era seu jeito desengonçadamente veloz de se locomover por onde ele não o poderia, sua cor escura, matizada entre o verde e o azul bem fortes e fechados até o preto. Talvez, tivessem até dois olhos e um coração. Mas não precisariam desse tipo de descrição enquanto habitassem a casa - e a sua vida - como legião. Estava sitiado.
Pó e lagartos. Só isso acompanhava os seus dias naquela casa. Às vezes, se estressava tanto com seus pequenos solavancos de espanto pela casa, em seus procederes de manutenção paliativa - que mais lhe permitiam esquadrinhar as regiões dominadas pelos répteis do que realmente zelar pela habitação - com os insetos mortos e as carreiras desesperadas dos escamosos rastejantes e sem idade, quando ele dava por abrir uma porta que até então parecia uma dispensa eternamente fechada, que ele esquecia de qualquer outra vida que não fosse aquilo.
Que não fosse dormir num colchão velho e furado e vendo no preto dos olhos fechados, milhões de pequenos olhos negros que brilhavam estranhamente no candeeiro de seus medos infantis, ou então, sentindo as cócegas nervosas que seu corpo lhe simulava no suava contato com o lençol furado, ele se punha facilmente a pensar em pequeninas e infinitesimais aracnídeos subindo por suas pernas debilmente descobertas. Quando terminassem de tomar a casa, tomariam a sua carne e lhe despedaçariam em seu sono, que nas suas elaboradas elocubrações, mais se assemelhavam à vigílias de fieis de corações retorcidos pelo ódio das gentes mesquinhas de províncias renegadas de deuses e cheias de demônios antigos e domésticos.
Sabia ele se torturar muito bem também. Não ignorava que se não lhe tivessem sido infligidos tantos infortúnios inesperados para um homem de compleição tão citadina quanto a dele, não hesitaria sua imaginação de lhe pregar truques com os mesmos fantasmas de sempre. Secretamente, sabia ele, seu corpo regojizava no inesperado pontapé desavisado que ele desferia, amiúde, a um lagarto apalermado, e sua mente se contorcia feliz, em ganas de prazeres expansivos e tropicais, no seu lento labor de vingança contra as aranhas e suas moradas insidiosas em tramas intricadas para afogá-las e esmagá-las - com sorte, adivinharia ainda como queimá-las também.
Sua única posse e território dentro daquela casa era a singela mala de viagem que ele trouxera consigo e que guardava suas mudas de roupa. Enquanto ela permanecesse um reduto seguro, no qual ele poderia tocar sem medo nos tecidos, sem aventar pela possibilidade de aranhas microscópicas em suas cuecas, ele poderia ser feliz, mesmo que inconscientemente. Lá, ele vivia o biológico da vida, sua eterna contenda e vilania generalizada; seu ódio era indiferente e seria passado a seus descendentes se ele não fosse um desses homens de vida obviamente estéril.
Era uma distração inocente que lhe ocupava os dias, e, às vezes, dependendo do quão bem imergisse no jogo, era capaz de presidir sobre a vida e a morte dentro daquelas paredes brancas e cobertas de seda milenar e tóxica. Fazia breves incursões por todos os cômodos da casa, todos os dias, para manter a moral alta perante todos as pequenas facções dominantes de cada quarto e manter seus números estáveis, sem tentar destruir seus focos, apenas evitando sua difusão repentina para uma zona ainda não ocupada.
Ao mesmo tempo, mantinha a maior parcela de sua energia e imaginação para a sala de estar, onde, por razões a ele desconhecidas, logravam residência muito menos lagartos nas paredes descascadas e também não se encontravam armários para o reduto de insetos das profundezas do pesadelo cotidiano. Munido de um balde d'água, uma vassoura e dois panos e um par extra de sandálias velhas - com os quais se deparou ainda na chegada à casa, empoeirados, por cima de um tapete deslocado no lado da porta - ele proclamava guerras aos donos de direito daquela morada planejada pelos homens aos animais. Já tinha conseguido para si um pequeno quadrado onde antes ficava o velho sofá empestado de bichinhos horríveis e reduzira quase que todo o resto do cômodo a uma área de forçosa paz com os lagartos, que por ela transitavam, agora, apenas pelas paredes e não mais pelo chão. A mobília fora drasticamente descartada tendo em vista seu potencial de fortaleza para toda sorte de criatura macabra e enxame que pudesse abrigar.
Acabava por nomear alguma aranha, ou lagarto, particularmente mal encarado ou por demais estático, por alcunhas militares. Ele era um guerrilheiro nas montanhas ermas em que se encontrava. Seu outrora etéreo mundo de brumas e liláses dera lugar a uma terrível e preciosa quimera: uma guerra que ele jamais conseguiria vencer contra a própria natureza que lhe abrigava de pesadelos ainda mais insondáveis.
Qual não foi sua felicidade quando encontrou uma marreta - quase uma maça medieval - nas rápidas escaramuças por um dos quartos perdidos por ora! Pôs-se a correr pela casa e destruir tudo que julgasse inútil ou traiçoeiro a seus intentos modestos de uma habitação sem visitantes indesejáveis. Com esmero e paciência, e, há quem diria até, não sem uma dose de técnica espontânea, capaz de inspirar sentimentos elevados em quem a observasse em ação, ele caía por sobre o mobiliário incauto tal qual tomado pela fúria com a qual um teutão ansiava por tomar os deuses como seus pares. Destruiu armários velhos na suíte, se livrando dos escombros com auxílio de uma perigosa estratégia envolvendo fogo e álcool de uma pequena dispensa de bebidas que ele se deparara ainda outro dia, inesperadamente. O plano imbecil funcionava porque a vodka era barata, a cachaça era farta e mesmo o mobiliário original que ele tencionava reduzir já era bem modesto para que o fogo não se alastrasse pela casa contanto que fosse ele rápido o bastante para controlá-lo uma vez concretizada a empreitada. Investia também nesse tipo de tática, pois julgava que de alguma maneira isso devia afetar seus adversários inumeráveis, invisíveis e onipresentes.
- Eu vou queimar todos vocês e suas dinastias condenadas, ele ria em meio a pequenas labaredas caseiras. Seu único medo era o de sufocar, pois as janelas abertas não davam muita vazão a fumaça que se fazia. Mas depois do terceiro armário queimado e de uma cama de casal quebrada, seu furor pirotécnico arrefeceu. O momento da ofensiva passara e agora, apesar do quadrado de entrada da sala permanecer o único lugar no qual ele se sentia a salvo, já podia contar com um quarto (um quadrado nu, guarnecido por uma cama no seu centro - toda a distância possível das paredes e de seus passantes - que contava com o já mencionado colchão velho e o lençol furado) e um banheiro, que por algum milagre de uma deidade local e generosa, funcionava magicamente, apesar de não ter água quente disponível.
Ainda assim, as imagens de seres microscópicos, rápidos e indiferentemente impiedosos correndo por todos os cantos de sua visão o solapavam constantemente em seus cada vez mais frequentes devaneios e delírios vespertinos. Visualizava, sentindo uma certa mescla de pavor e graça, seus braços alvos diligentemente lavando os pratos certa noitinha, cantando uma singela canção, confortavelmente um tom ou dois abaixo do original, quando uma aranha se precipitaria de sua teia estendida desde o início dos céus, passado por algum pequeno e imperceptível furo do teto, para se propulsionar dentro de sua boca em desavergonhada abertura musical.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Pequena reflexão sobre momentos íntimos
- É isso que você quer?
- Sim, é isso que eu quero.
A noite cai e pode passar mais cedo do que um sussurro. Qual a linha que divide tudo em seu devido lugar? Não é ela quem rege a noite e seus amores, mas sim, algum brilho vespertino na retina que alerta aos dedos para o perigo do que se toca quando não há mais luz.
E o perigo é ignorado em sua real natureza. Então, ele é apenas a face mais cristalinamente difusa do momento. Em que momento você se perde e ama? Isso eu não pude perguntar. Ele me abraçava e era bruto. Mas jamais pararíamos de competir. Um de nós venceria e feriria o outro para nunca mais nos vermos. Até lá, riríamos e seríamos adoráveis juntos. Como pequenas pessoas vivendo pequenas vidas de vidro. Preciosos.
Imprecisos no alto madrugada, nossos corpos erram pelas vastas extensões do lençol revolto, tal qual soprasse pela cama o vento que assola o sargaço mar dos trópicos. Não que haja o mistério em proporções tão pequenas quanto a vida privada dos panos e dos amores jovens, mas algo de naufrágio e refúgio salgava os beijos e tornava os toques ásperos. E isso nos fascinava até o fim das horas.
E nos cantos, nos nichos invisíveis das paredes, ardiam as velas. Algo antigo e cego que vivíamos sempre na noite. Eu não gostava do escuro nessas horas, mas era o jeito. Não podia me fingir de cego para o que poderia estar me aguardando na claridade. Qualquer coisa que me desagradasse.
Nos falamos por gestos e palavras que não significam nada fora do espaço delimitado pelo ritual. Somos crédulos quando amamos. E amamos quando amamos. Nada há de inocente e talvez queira-se inculcar culpa até nesses atos supostamente tão livres e caóticos. Paro de julgar quando me dão prazer?
O que dizia sua língua quando ela me provava no calor mais derradeiro desses momentos? E nos momentos de sonho quando meus olhos vem o negro do sono, mas sente o claro clangor dos corpos nos seus calos? Nada que eu pudesse levar comigo para um outro momento no qual eu precisasse de força e consolo. Aquele momento era aviltado de toda uma vida de recordação, mas nunca se acabava naquele momento em que ele era para sempre e nossos braços jamais se desencontraria no chamado da noite.
- Alguém me mata por debaixo dos lençóis. Era o momento que eu esperava desde o início. Era a forma que meu corpo sempre ansiou nas contorções de prazer e nos gritos de dor. Esse é o alívio de que lhe falei. Vamos embora. Adeus.
- Sim, é isso que eu quero.
A noite cai e pode passar mais cedo do que um sussurro. Qual a linha que divide tudo em seu devido lugar? Não é ela quem rege a noite e seus amores, mas sim, algum brilho vespertino na retina que alerta aos dedos para o perigo do que se toca quando não há mais luz.
E o perigo é ignorado em sua real natureza. Então, ele é apenas a face mais cristalinamente difusa do momento. Em que momento você se perde e ama? Isso eu não pude perguntar. Ele me abraçava e era bruto. Mas jamais pararíamos de competir. Um de nós venceria e feriria o outro para nunca mais nos vermos. Até lá, riríamos e seríamos adoráveis juntos. Como pequenas pessoas vivendo pequenas vidas de vidro. Preciosos.
Imprecisos no alto madrugada, nossos corpos erram pelas vastas extensões do lençol revolto, tal qual soprasse pela cama o vento que assola o sargaço mar dos trópicos. Não que haja o mistério em proporções tão pequenas quanto a vida privada dos panos e dos amores jovens, mas algo de naufrágio e refúgio salgava os beijos e tornava os toques ásperos. E isso nos fascinava até o fim das horas.
E nos cantos, nos nichos invisíveis das paredes, ardiam as velas. Algo antigo e cego que vivíamos sempre na noite. Eu não gostava do escuro nessas horas, mas era o jeito. Não podia me fingir de cego para o que poderia estar me aguardando na claridade. Qualquer coisa que me desagradasse.
Nos falamos por gestos e palavras que não significam nada fora do espaço delimitado pelo ritual. Somos crédulos quando amamos. E amamos quando amamos. Nada há de inocente e talvez queira-se inculcar culpa até nesses atos supostamente tão livres e caóticos. Paro de julgar quando me dão prazer?
O que dizia sua língua quando ela me provava no calor mais derradeiro desses momentos? E nos momentos de sonho quando meus olhos vem o negro do sono, mas sente o claro clangor dos corpos nos seus calos? Nada que eu pudesse levar comigo para um outro momento no qual eu precisasse de força e consolo. Aquele momento era aviltado de toda uma vida de recordação, mas nunca se acabava naquele momento em que ele era para sempre e nossos braços jamais se desencontraria no chamado da noite.
- Alguém me mata por debaixo dos lençóis. Era o momento que eu esperava desde o início. Era a forma que meu corpo sempre ansiou nas contorções de prazer e nos gritos de dor. Esse é o alívio de que lhe falei. Vamos embora. Adeus.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Pausa
Pausa
pequena pausa
momento de mestre
momento de gestos
mímica muda
soluço que engulo
- É só mais um dia
só mais um dia
só mais um dia
só mais um dia
Uma lesão
que força os ombros
que cresce no peito
que pesa as costas
e me joga na rua
e nos braços de alguém
- É só mais uma noite
só mais uma noite
só mais uma noite
só mais uma noite
pequena pausa
momento de mestre
momento de gestos
mímica muda
soluço que engulo
- É só mais um dia
só mais um dia
só mais um dia
só mais um dia
Uma lesão
que força os ombros
que cresce no peito
que pesa as costas
e me joga na rua
e nos braços de alguém
- É só mais uma noite
só mais uma noite
só mais uma noite
só mais uma noite
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Hounds Of Love
Até aqui os cães incansáveis me levaram, ao farejarem um coração ávido de amor e outras emoções baratas. São quatro terríveis e brancas paredes que me encerram por detrás das cortinas e da porta, preso nesta que é a câmara mais final de meu momento: o quarto daquele que eu posso amar.
Que eu posso amar calmo, como quem se levanta da cama e se espreguiça com um certo prazer, redescobrindo as dimensões do próprio corpo; que eu posso amar como quem não quer se machucar, mas assim o faz; enfim, que eu posso amar como só que sabe amar trágico e furioso pode. Então, eu levanto meus olhos lentamente para ele e vejo suas costas arqueadas. Ele senta insuspeito na sua cadeira, confiante de minha presença e atração - o que mostra que, às vezes, não basta saber de algo para se estar certo.
Fui encurralado nesse pequeno e miserável quarto, deitado na cama desse homem que jamais me amará. Não importa quantas horas em areias verta aqui minha mais ima ampulheta a pulsar no peito. Não importando quantos anos meus olhos revelem de provas e prêmios; não importando os segredos e os gozos inauditos de artes ancestrais meu corpo possa ministrar nos segundos mais decisivos do sexo. É no abraço inexorável do meu fracasso eminente que eu posso amar e sofrer como quem tem um amigo no mundo.
Eu estou tão fácil aqui, apesar disso. É como se tudo isso que ainda vai acontecer me fosse muito antigo e claro, uma imagem impressa no cristalino dos olhos - eu todo me sinto como um mapa dos meus deleites e desprazeres ao longo do tempo, sou uma pessoa bem óbvia nesse particular - e eu sei o que posso esperar.
Comigo nada é simples: há sempre uma música, uma frase, um pensamento, em suma, uma arapuca elaborada para transformar as pessoas no que eu quero que elas sejam para mim. No caso em pauta, o homem que escreve diligentemente na sua bancada - e que, com certeza, são as mais belas palavras para uma outra pessoa... - ingenuamente tropeçou por todas as sendas que o fazem indispensável para mim agora, sendo o ápice de seu amor não o sêmen aspergido em glória divina, mas o desprezo e a inocência que o seguem. A inocência de ignorar o céu e o inferno que eu ergui em seu opróbrio por me ter infame e insignificante, de me delegar ao seu leito não mais do que as horas furtivas e oportunas das minhas carícias pesadas e abrasadoramente frias - o peso do cálculo e do plano, a minha fabulosa mnemotécnica da dor, a ladainha primordial de todas as primaveras do amor - e o de um risível abraço que nos enlaçaria até as primeiras horas da manhã seguinte. Como se tudo isso não fosse um grosseiro engano.
Ele pagará em minha imaginação todo o peso dos homens em ouro que já passaram pelo meu coração. Ele pagará a sina de minha mãe em todo seu desamor. Ele pagará, finalmente, os anseios vingados de um jovem nas ruas abandonado. Ele pagará e eu irei embora para nunca mais.
Temos hábitos diferentes. Não suporto a luz acesa após certo horário, aquela claridade alaranjada e insípida me irrita. Irrompo o rosto por entre as cortinas e vejo a noite tal qual ele sempre poderá vê-la, enquanto eu sei que essa me será a oportunidade derradeira.
Nada demais. Sim, mesmo na beleza e no desejo atendidos, nada há de redentor na saciedade. Vejo a noite e a escuridão que tanto ansiava e não me comovo, é como beber água quando não se tem tanta sede assim. Vejo um avião passando longe e penso em linhas e cores de uma música. É isso que ele me deu e que eu estava esperando. Muitas vezes eu já a tinha escutado, perdida na sequenciação de um disco longo e hermético, sempre a tomando como a mais enfadonha das faixas. Mas agora é ela quem pinta e adivinha meus passos nas noites que vão se seguir do meu olvido daqui e da vida dele. Sim Amelia, foi só um falso alarme.
Antes mesmo que ele olhasse para mim em desejo naquela noite eu já havia decidido o meu destino e o de meus pés. Seria eu sempre gentil e carinhoso, e o teria nas vistas como quem vê um grande e plácido amor estendido em planícies translúcidas e roxas, vastas e eternas - um amor leal e pesado, de uma singela queda bovina pelas coisas de sempre e seus encantos cansados - extensa relva na qual eu não posso me confiar sequer um mísero repouso, em risco de nela ser tomado pelas vinhas e me transfigurar em relva.
Porque eu amo com a necessidade de que um acorde se faz seguir por outro, com a sagrada e divina necessidade imbecil de que uma cor se sobrepõem a outra. Com o patético do desejo esvoaçante e adolescente que faz de um gesto e de um beijo um adeus mudo e amargado em lágrimas que eu não vou deixar você ver jamais - e não se trata de orgulho, isso eu lhe juro.
E com essa cegueira eloquente eu amo você como quem antevê a véspera do fim do mundo e só você como o anti-fim do mundo, como a saída. Como o único trilho possível a se seguir.
Então vem um milagre, depois de um mês ou dois de sofríveis pinturas rupestres em letras e nomes, vem o milagre de alguém novo por quem sofrer e perseguir com graça e silêncio, indelével, mas imperceptível, sem tomar muito espaço. Como quem ama para salvar a si mesmo de algo que pode surpreender por entre as folhas nos jardins que são todos os arredores numa madrugada deserta e imóvel numa rua próxima de casa, enquanto passam as prostitutas e me cumprimentam amigáveis - só quem é capaz de se dissimular inofensivo e digno inspira tal coleguismo de estranhos na noite, mas por toda a gama de razões possíveis.
Haverá um novo caminho, um novo homem, e mais uma mortalha que eu desfiarei todas as noites que serão naqueles fatídicos dias, todas as noites de minha vida. Cada amor é mais uma pele morta que eu tiro de cima de mim com franco espanto. Com uma exclamação muda que se eu externar, pode me fazer chorar.
O pranto copioso nunca me fez bem. Prefiro andar sozinho e pensar em nuvens e mulheres, em como um se torna o outro e como um canta o outro, até que eu chegue em casa e coma ou durma. A marcha dos cães cansados que me trouxeram até aqui, farejando meu medo e minha carência, foi sempre para me levar de volta para casa. Talvez, tenha manhã um dia no qual eu possa realmente me aventurar, não mais subir as conhecidas alturas estagnadas dos planaltos do amor fácil e espelhado de sempre, e me apaixonar de verdade e incendiar os meus mais antigos campos e prados, não mais ser um servo da terra e olhar para o mundo, enfim, como quem o vê feito do mais imaterial e desenha nas nuvens o destino dos dias e das coisas que caem pelos seus olhos como pequenos acidentes de um percurso desconhecido, gravado e expresso no seu sangue.
Que eu posso amar calmo, como quem se levanta da cama e se espreguiça com um certo prazer, redescobrindo as dimensões do próprio corpo; que eu posso amar como quem não quer se machucar, mas assim o faz; enfim, que eu posso amar como só que sabe amar trágico e furioso pode. Então, eu levanto meus olhos lentamente para ele e vejo suas costas arqueadas. Ele senta insuspeito na sua cadeira, confiante de minha presença e atração - o que mostra que, às vezes, não basta saber de algo para se estar certo.
Fui encurralado nesse pequeno e miserável quarto, deitado na cama desse homem que jamais me amará. Não importa quantas horas em areias verta aqui minha mais ima ampulheta a pulsar no peito. Não importando quantos anos meus olhos revelem de provas e prêmios; não importando os segredos e os gozos inauditos de artes ancestrais meu corpo possa ministrar nos segundos mais decisivos do sexo. É no abraço inexorável do meu fracasso eminente que eu posso amar e sofrer como quem tem um amigo no mundo.
Eu estou tão fácil aqui, apesar disso. É como se tudo isso que ainda vai acontecer me fosse muito antigo e claro, uma imagem impressa no cristalino dos olhos - eu todo me sinto como um mapa dos meus deleites e desprazeres ao longo do tempo, sou uma pessoa bem óbvia nesse particular - e eu sei o que posso esperar.
Comigo nada é simples: há sempre uma música, uma frase, um pensamento, em suma, uma arapuca elaborada para transformar as pessoas no que eu quero que elas sejam para mim. No caso em pauta, o homem que escreve diligentemente na sua bancada - e que, com certeza, são as mais belas palavras para uma outra pessoa... - ingenuamente tropeçou por todas as sendas que o fazem indispensável para mim agora, sendo o ápice de seu amor não o sêmen aspergido em glória divina, mas o desprezo e a inocência que o seguem. A inocência de ignorar o céu e o inferno que eu ergui em seu opróbrio por me ter infame e insignificante, de me delegar ao seu leito não mais do que as horas furtivas e oportunas das minhas carícias pesadas e abrasadoramente frias - o peso do cálculo e do plano, a minha fabulosa mnemotécnica da dor, a ladainha primordial de todas as primaveras do amor - e o de um risível abraço que nos enlaçaria até as primeiras horas da manhã seguinte. Como se tudo isso não fosse um grosseiro engano.
Ele pagará em minha imaginação todo o peso dos homens em ouro que já passaram pelo meu coração. Ele pagará a sina de minha mãe em todo seu desamor. Ele pagará, finalmente, os anseios vingados de um jovem nas ruas abandonado. Ele pagará e eu irei embora para nunca mais.
Temos hábitos diferentes. Não suporto a luz acesa após certo horário, aquela claridade alaranjada e insípida me irrita. Irrompo o rosto por entre as cortinas e vejo a noite tal qual ele sempre poderá vê-la, enquanto eu sei que essa me será a oportunidade derradeira.
Nada demais. Sim, mesmo na beleza e no desejo atendidos, nada há de redentor na saciedade. Vejo a noite e a escuridão que tanto ansiava e não me comovo, é como beber água quando não se tem tanta sede assim. Vejo um avião passando longe e penso em linhas e cores de uma música. É isso que ele me deu e que eu estava esperando. Muitas vezes eu já a tinha escutado, perdida na sequenciação de um disco longo e hermético, sempre a tomando como a mais enfadonha das faixas. Mas agora é ela quem pinta e adivinha meus passos nas noites que vão se seguir do meu olvido daqui e da vida dele. Sim Amelia, foi só um falso alarme.
Antes mesmo que ele olhasse para mim em desejo naquela noite eu já havia decidido o meu destino e o de meus pés. Seria eu sempre gentil e carinhoso, e o teria nas vistas como quem vê um grande e plácido amor estendido em planícies translúcidas e roxas, vastas e eternas - um amor leal e pesado, de uma singela queda bovina pelas coisas de sempre e seus encantos cansados - extensa relva na qual eu não posso me confiar sequer um mísero repouso, em risco de nela ser tomado pelas vinhas e me transfigurar em relva.
Porque eu amo com a necessidade de que um acorde se faz seguir por outro, com a sagrada e divina necessidade imbecil de que uma cor se sobrepõem a outra. Com o patético do desejo esvoaçante e adolescente que faz de um gesto e de um beijo um adeus mudo e amargado em lágrimas que eu não vou deixar você ver jamais - e não se trata de orgulho, isso eu lhe juro.
E com essa cegueira eloquente eu amo você como quem antevê a véspera do fim do mundo e só você como o anti-fim do mundo, como a saída. Como o único trilho possível a se seguir.
Então vem um milagre, depois de um mês ou dois de sofríveis pinturas rupestres em letras e nomes, vem o milagre de alguém novo por quem sofrer e perseguir com graça e silêncio, indelével, mas imperceptível, sem tomar muito espaço. Como quem ama para salvar a si mesmo de algo que pode surpreender por entre as folhas nos jardins que são todos os arredores numa madrugada deserta e imóvel numa rua próxima de casa, enquanto passam as prostitutas e me cumprimentam amigáveis - só quem é capaz de se dissimular inofensivo e digno inspira tal coleguismo de estranhos na noite, mas por toda a gama de razões possíveis.
Haverá um novo caminho, um novo homem, e mais uma mortalha que eu desfiarei todas as noites que serão naqueles fatídicos dias, todas as noites de minha vida. Cada amor é mais uma pele morta que eu tiro de cima de mim com franco espanto. Com uma exclamação muda que se eu externar, pode me fazer chorar.
O pranto copioso nunca me fez bem. Prefiro andar sozinho e pensar em nuvens e mulheres, em como um se torna o outro e como um canta o outro, até que eu chegue em casa e coma ou durma. A marcha dos cães cansados que me trouxeram até aqui, farejando meu medo e minha carência, foi sempre para me levar de volta para casa. Talvez, tenha manhã um dia no qual eu possa realmente me aventurar, não mais subir as conhecidas alturas estagnadas dos planaltos do amor fácil e espelhado de sempre, e me apaixonar de verdade e incendiar os meus mais antigos campos e prados, não mais ser um servo da terra e olhar para o mundo, enfim, como quem o vê feito do mais imaterial e desenha nas nuvens o destino dos dias e das coisas que caem pelos seus olhos como pequenos acidentes de um percurso desconhecido, gravado e expresso no seu sangue.
Assinar:
Postagens (Atom)