Cruzar aquelas vielas escuras no cerne da solidão era uma tarefa árdua e arriscada - mas como recompensava bem! Cada sombra era uma ameaça e minha miopia sempre soube tirar o melhor dos borrões que passam a me cercar - tudo é fantástico e perigoso, monstros e arlequins retorcidos por minha cega teimosia de não usar óculos.
Eu mudava de calçadas, eu apressava os passos e elegia heróis no cair da chuva. Me aproximava e os usava de escudo contra os que tomava pelos vilões. Sem bem ou mal, os heróis eram aqueles que eu via melhor e andavam no mesmo sentido que o meu, só que a frente. Inversamente, eram os vilões aqueles cujos borrões eram negros e retorcidos a princípio e seguiam para o embate comigo. Era um prazer baixo medievalizar minhas madrugadas em justas de cavaleiros, mas esse era um dom só meu - feiticeiro e donzela, o poder e o ego - e era tudo tão lindo sobre aquelas ruas olorosas e amiúde povoada de seres ébrios e caricatos, os quais, para o meu deleite ocasional, interagiam comigo espirituosamente, quando num dia perfeito, uma velha mendiga me confundiria com uma menina, o que comoveu a alegria geral de minha trupe.
Era bom andar com grupos pequenos, com pequenas diferenças entre si, um degradé que não deixa de ser um tanto monocromático. Enquanto alguns viam nesse humor uma afetação, as mais elevadas riam dos risos entre os risos; do riso da mendiga para mim, do meu riso para ela que na verdade era para todos, e ainda o riso que a plateia dispensava ao ator pro-eficiente, que cumpria fatal as deixas que a noite de espetáculos lhe reservava. Melinda era baixa e voluptuosa, mas era um primor técnico rir com ela do mundo e de suas criaturas, caprichosas crias do acaso e da miséria inflacionada.
Mas agora, eu estava sozinho e, de fato, havia perigo naqueles caminhos. Meu fim seria, porém, outro dia, constatei eu indiferente ao chegar nas artérias mais congestionadas daquela noite e ver gente em cada perspectiva possível. Como cresciam aberrantes aos meus olhos, eu que até uma hora atrás estava a me rir com elas e dançar suas músicas ruins e seus amores furtivos para a alegria de todos perante a comunhão máxima das vidas que não as suas próprias.
Tal qual outrora os grandes banquetes precediam os dias de rigor e fome, o inverno que se anunciava a cada novo dia nas cidades de luz e lixo era uma morte anônima e cifrada na privacidade pequena de cada um desses comensais que agora viviam tudo aquilo que julgavam ser excessivo e supérfluo - como eram moralistas por assim crerem ser aquele trista e comedida amostra de arroubos cômicos e furtados algo digno de punições maiores do que uma ressaca.
De qualquer forma, eu me sentia seguro por estar no meio deles. Porém, não ando sozinho de noite para me sentir seguro, e se é o caso, o melhor é eu voltar para casa.
Mas eu me detenho e dou voltas nas ruas movimentadas, driblando ostensivamente os pequeninos ladrões, e languidamente pousando os olhos sobre aqueles mais felizes, como se fosse eu quem pedisse as esmolas de uma felicidade rasa e de graça, que se destinava a uns felizes eleitos de divindades menores e mais pródigas - eu que rezava ao Terrível, aquele quem desfaz os absolutos e oblitera a verdade toda na torrente de si próprio - enquanto procurava por uma pessoa em particular. Estava escuro e nessas horas que eu cria ingenuamente que era mais fácil de achar aqueles que reluziam ao meu olhar - ah, como posso ainda ser doce na vulgaridade! Estimulo perverso minha coqueteria.
Levantava os olhos expectantes, como se levasse à luz ao caminho do tesouro, mas para nada nem ninguém. Mais cedo ou mais tarde, eu me daria conta futilidade dessa empresa e me subtrairia dessa noite. Minhas dores levariam meus pés para a casa e de lá, eu iria até o meu nunca mais.
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segunda-feira, 25 de julho de 2011
domingo, 24 de julho de 2011
Eu estava no terraço do Bastião, meio perdido no meio das pessoas. Sim, meus ecos são cacofônicos por excelência e a excelência é o nome para a inércia quando ela é benquista e assumida, ou assim me rezam os evangelhos apócrifos aos quais me dedico a escrever com as palavras que roubo nessas noites mesquinhas de prazeres pequenos.
Uma certa soberba também me acossou enquanto me dirigia para um dos vértices do terraço, muito bem gradeado diga-se passagem. O Bastião era baixo, mas sou covarde, e seus quatro andares de cinza e promiscuidade adolescente me assustam - morrer lá seria antes por mal-gosto do que por fatalidade - além disso, já estava muito tarde para me fiar tão somente no meu equilíbrio.
Era um ritual que já não me trazia mais grandes revelações, a não ser a da obviedade disso tudo. Sim, a questão da obviedade que já me faz tão clara e intuitiva mas é obscura para você, meu caro Outro.
Antes, me era requerida toda uma bravura particular para desbravar as sendas daqueles que viriam para preencher as minhas. Um blefe, um desafio descarado e um orgulho inegável pelas recusas que construíram todo um ego artificial, um rosto por cima da máscara, que hoje é mais uma das várias faces gorgôneas e divertidas que tenho para combinar com meu guarda-roupa sensato e sensual. Me forjei na brasa dos toques alheios, moldado por mãos que não as minhas, mas sempre dirigidas pelo meu projeto maior e secreto: o silêncio por si mesmo, por excelência, vício da preguiça.
Enfastiado das minhas próprias surpresas, desses exercícios de gêneros, verdadeiras punhetas criativas, eu me abri - é tão bom quando as palavras são idôneas aos fenômenos que devem expressar - ao alheio e apreciei os resultados, tanto pelo apelo estético que da minha estoicidade provinha quanto pela promiscuidade ao me relegar aos planos mais rasteiros das relações, porque eu nunca fui tão ingênuo quanto eu deveria, como se eu estivesse uma oitava acima da que eu deveria estar devido a um falsete, um truque. Um truque dentro de um truque como se alguém além do meu Outro pudesse apreciá-lo devidamente. Mas também nunca me apresentei para as multidões. Sempre fui um artista de pequenos espaços e atmosferas espessas, os discretos e os arruinados me entendem melhor do que ninguém.
Enfim, era um jogo sangrento e sujo e eu adorava, porque no mais último era sempre eu contra eu - não tinha como eu perder então - mas agora, se tornou repetitivo, mas o que fazer no lugar disso?
Em outros tempos, essa descoberta do mágico como óbvio, teria me pesado mais do que meus doces de domingo. Mas agora eu era um pouco mais forte e cretino, sabia como escapar.
Ainda assim, era com um genuíno pesar e voyeurismo que eu me forçava a me imaginar desesperado e me jogando daquele triste prédio virulento. Sou romântico às vezes, e sei, portanto, extrair beleza da diafaneidade da pele inerte que se estenderia sobre as pedras portuguesas que restam na calçada.
Gosto de pensar que eu jazeria com o pescoço esticado e minha veia mais saliente se externaria trágica na minha palidez mórbida, reluzindo em acordo com meus olhos vazios. Meus cabelos revoltos pela última vez na curva de seus cachos e meu tronco alongado e deformado pela queda. Apenas um certo pudor conferiria beleza à cena - uma reverência de reconhecer o dano e a tragédia, como ver um quadro com cores das quais não se gosta, mas que não impedem o apreço da obra. Gosto mais ainda me me crer como alguém capaz de tais juízos, a morte é o de menos.
Enfim, no aguardo de novas pessoas com as quais me exercer na minha gloriosa condição de belo ser da noite, eu meditava arrogante sobre minhas paixões e meus labirintos. Como eu me diminuía nesses ecos, reconhecia ao menos que certos dias eu dava performances dignas, mas não mais me bastava aqueles trejeitos vocais e os abraços de entrega. A chama do ritual oscilava cada vez mais, fazia-se notar a ausência de uma nova vela a sustentar a velha chama, e não estava lá definitivamente.
Minhas meninas estavam felizes e bêbadas, deixei-as lá por capricho. Era um sinal claro de poder sair sozinho e ganhar o escuro das ruas só para si. Foi com certa tristeza e enfado que me percebi como esse misantropo envelhecido pelos transportes nas próprias linhas do rosto - novamente, é muita masturbação e eu já estava muito temperado pelos artifícios mais segundos para me contentar com isso.
Parto com meus deuses e deixo as luzes do Bastião para trás. A manhã se anuncia apenas nos meus olhos que já vem as cortinas e os versos que reservo para elas na minha lassidão - não sei o que lassidão significa, mas o meu hoje já é um ontem no início do meu amanhã; está muito tarde e a verdade também dorme de madrugada no ônibus junto comigo - posso tudo no meu sono acordado, e me permito o ócio e a inatividade. Dou os passos finais dessa jornada fragilizado pelo frio e tocado pelas gotas torrenciais de um dia que começara depois de algumas reflexões - falo do tempo meu, secreto e torto, que muitas vezes pára e retoma veredas até então abandonadas como lembranças. Viva à memória de mim e dos meus muitos amores anônimos - tenho uma mordida no pescoço e durmo fácil, sou uma putinha de filme hipster auto-referente - e viva à cultura
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