Cresça manhã, cresça manhã, disseram os meus braços a se expandirem em direção ao teto, ainda com a boca amarga de noite e o ventre dilacerado pelo parto dos sonhos.
Era na manhã que era feliz. Apenas nela conseguia deslumbrar a maravilha do testemunho da existência dos pequenos infinitos. Enquanto todos ainda acordavam, todo ele era corpo para o que se anunciava e fazia dessa promessa de matina um dia inteiro sem ter que se levantar.
Era rei de uma cama, que ora vazia ou compartilhada, limpa ou suja, ou antes que cama nem colchão ao menos, era dono de todo aquele espaço e nele vencia.
Vencia os relógios que tocavam em todo hemisfério oeste da grande orbe; o avanço do tempo no mundo dos homens e o clamor das águas raras por ajuda; o desejo da vida de se drogar todo dia em algo qualquer que não ela própria; o canto dos santos druidas que afundaram na Atlântida em cima de emplumados dinossauros; e os olhares reprovadores das brancas paredes que refletiam todas as cores por serem fracas e covardes demais para absorverem alguma. Vencia todas as provas terríveis que lhe tentavam alertar amiúde que era jovem e tolo.
Ah, mas ser jovem numa manhã que nunca acaba, proclamar guerra entre os travesseiros e lençóis e servir torpemente de mediador entre eles! Ou então, mais maravilhosamente, falar não consigo mesmo, mas com todos aqueles que ainda vão nascer, rasgar o tempo com a voz e falar, e quem sabe, até mesmo dizer alguma coisa - será que no futuro conseguirão os homens falar menos e dizer mais? Será que há redenção para uma língua viciada no falar? Que não haja então!
O silêncio seria sua punição. Porém, em tal penitência ele encontraria a glória mais absoluta...
Sim, não mais falar, ser livre para dizer com todo som que seu corpo pudesse produzir, esticar a perna longa e fastidiosamente e riscá-la em arco, como se fosse a ponta de um compasso incrivelmente preciso; olhar e refletir nos olhos a luz captada das estrelas que refulgiam além do Sol, refletir a cor de brilho que viajou por milhões de anos até aquele segundo de percepção; ou então nada. Não faria nada se o silêncio o abrigasse, lhe servindo de amante e de abrigo, só tentaria existir. Concluiu que seria mais honesto apenas, se não falasse.
O passado, o futuro, a espécie, de nada lhe serviam tais reflexões perante o espectro de infinito que lhe descortinava, não só aquela, como todas as manhãs de sua vida, uma miríade de possibilidades para o dia.
Agora, sua mão circulava em gentis carícias sobre as costelas, tal qual um cumprimento entre velhas amigas! ah, mas não se engane, eram bem mais que isso, eram cúmplices numa grande trama que até hoje ele não intuia a existência. Aquele corpo só lhe parecia seu, aquela pele só fazia de cubrir a verdadeira derme...
Começa ele a falar, talvez em pensamento, talvez de fato, mas em ambos os casos ainda preso num sonho “Sonhei com seu cheiro ontem, enquanto lhe exprimia a essência para adoçar o meu café e...”
O feitiço expirara. Estava agora deitado, mas era desperto. Havia um dia cheio e cinza para ser atravessado e um breve idílio suspenso como um folêgo roubado a ser esquecido. Era ele um homem e tinha pernas, e tinha que se por a andar.
Era na manhã que era feliz. Apenas nela conseguia deslumbrar a maravilha do testemunho da existência dos pequenos infinitos. Enquanto todos ainda acordavam, todo ele era corpo para o que se anunciava e fazia dessa promessa de matina um dia inteiro sem ter que se levantar.
Era rei de uma cama, que ora vazia ou compartilhada, limpa ou suja, ou antes que cama nem colchão ao menos, era dono de todo aquele espaço e nele vencia.
Vencia os relógios que tocavam em todo hemisfério oeste da grande orbe; o avanço do tempo no mundo dos homens e o clamor das águas raras por ajuda; o desejo da vida de se drogar todo dia em algo qualquer que não ela própria; o canto dos santos druidas que afundaram na Atlântida em cima de emplumados dinossauros; e os olhares reprovadores das brancas paredes que refletiam todas as cores por serem fracas e covardes demais para absorverem alguma. Vencia todas as provas terríveis que lhe tentavam alertar amiúde que era jovem e tolo.
Ah, mas ser jovem numa manhã que nunca acaba, proclamar guerra entre os travesseiros e lençóis e servir torpemente de mediador entre eles! Ou então, mais maravilhosamente, falar não consigo mesmo, mas com todos aqueles que ainda vão nascer, rasgar o tempo com a voz e falar, e quem sabe, até mesmo dizer alguma coisa - será que no futuro conseguirão os homens falar menos e dizer mais? Será que há redenção para uma língua viciada no falar? Que não haja então!
O silêncio seria sua punição. Porém, em tal penitência ele encontraria a glória mais absoluta...
Sim, não mais falar, ser livre para dizer com todo som que seu corpo pudesse produzir, esticar a perna longa e fastidiosamente e riscá-la em arco, como se fosse a ponta de um compasso incrivelmente preciso; olhar e refletir nos olhos a luz captada das estrelas que refulgiam além do Sol, refletir a cor de brilho que viajou por milhões de anos até aquele segundo de percepção; ou então nada. Não faria nada se o silêncio o abrigasse, lhe servindo de amante e de abrigo, só tentaria existir. Concluiu que seria mais honesto apenas, se não falasse.
O passado, o futuro, a espécie, de nada lhe serviam tais reflexões perante o espectro de infinito que lhe descortinava, não só aquela, como todas as manhãs de sua vida, uma miríade de possibilidades para o dia.
Agora, sua mão circulava em gentis carícias sobre as costelas, tal qual um cumprimento entre velhas amigas! ah, mas não se engane, eram bem mais que isso, eram cúmplices numa grande trama que até hoje ele não intuia a existência. Aquele corpo só lhe parecia seu, aquela pele só fazia de cubrir a verdadeira derme...
Começa ele a falar, talvez em pensamento, talvez de fato, mas em ambos os casos ainda preso num sonho “Sonhei com seu cheiro ontem, enquanto lhe exprimia a essência para adoçar o meu café e...”
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