Uma noite qualquer
vai me custar mais caro
que eu não recebo mais
o teu beijo não dado
Uma noite mais assim
vai me custar bem mais
que todos os seus beijos,
saí sorrateiro, nos shorts vermelhos
Uma noite bem como essa
ainda vai me custar bem caro
que os carros passam rápido
e me gritam "olha o viado"
Uma noite bem como essa
ainda vai muito me amargar
que eu vivo no sangue marcado
Numa noite qualquer
tudo aconteceu muito rápido
e o perigo passou aí ao lado
sexta-feira, 4 de março de 2016
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Fábula
O jovem, uma vez desenganado sobre as coisas que doem, deitou a cabeça no colo do homem que dizia lhe amar. Contando as flores ao redor, ele, enfim, disse ao seu companheiro:
- Acho que não se escapa disso. Isto é, de que alguém está sempre em fuga em relação à gente. Pra elas mesmas, elas estão quase parando, seguindo o seu caminho e todas as vicissitudes que nele habitam. Mas pra mim, pelo menos, é como se todo mundo passasse e me tomasse pela mão, roubando todo o meu fôlego. Quando eu paro de respirar, eu viro algum serzinho de jardim, uma fada, talvez, e tento acompanhá-las dobrando os ventos que sopram em seu favor. Elas me olham então e é como se eu tivesse sido sempre de vidro e me agradecem o favor. E eu fico lá, sabe?
Mais calejado, e com gosto mais elevado, o homem mais velho fitava o horizonte calado, mas não fazia pouco das palavras do seu amado. De repente, conferiu ao seu olhar todo o peso e calor do seu corpo, dardejando o mancebo como um deus cioso de fulminar um infiel. No entanto, sua fala era calma e sua ira, era, em verdade, desejo bruto. Ele disse:
- Você quer que eu lhe jogue na relva e lhe ame furiosamente por alguns dias. Que eu te sofra a juventude e estupidez que lhe é própria, como se eu estivesse comendo um doce exagerado. Não tenho tempo para isso. Posso ficar do seu lado, posso amar o seu corpo, posso até te fazer em pedaços (que eu bem sei que você quer). Mas conheço teu nome e espécie. Não és nenhuma ninfa, mas uma planta carnívora. Tua forma, na verdade, é a de uma jarra cuja boca é vedada quando da captura da presa. Solitário, eu apodreceria dentro de ti, enquanto você, nutrido dos lentos sucos da minha dissolução só provaria a fel do meu coração e se amarguraria, pensativo e raso, "deuses, por que sou eu tão sozinho?".
O rapaz se levantou pronta e indignamente. Recuou alguns passos, talvez, para pensar melhor as palavras que queria dizer, escapando à visão do outro, que permanecera sentado, mirando os olhos abertos do firmamento. Por fim, distraído pela invectiva e pelas aves negras do céu a cantar, tropeçou numa raiz e rolou estrepitosamente colina abaixo. Ciente de que uma morte à altura havia lhe acometido, ele se permitiu algumas lágrimas, provando a beleza eterna daqueles que só conheceram a mocidade e os frescores do amor e da vida. Baixasse um deus melancólico e sem humor, ele teria sido arrebatado. Para o seu azar, o deus pequeno daquelas paragens tinha muito bom humor e pouca paciência para o azedume. Encantando, então, os seus abutres, que já se dirigiam para o recente cadáver, o deus pequeno lhes alterou a garganta e as asas, de modo que o ruflar das penas, o rasgar dos bicos, e o clangor da fome atendida, soaram como um adeus cálido de uma criança envergonhada que um dia ainda conheceria a felicidade. Sem se deixar enganar, no entanto, nosso duro e pobre namorado tomou seu caminho de volta e entregou seu passado aos pássaros, meditando o infortúnio dos homens e a pequenez de tudo que se parece com o amor diante disso.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Sinto que não falta muito
pra eu me cansar dessa vida
de ir me embora sem mais -
que eu fique ao menos
até o fim da garrafa
- Qualquer coisa, eu te conto
uma história muito bonita
e você finge que eu não sei meu lugar
e que eu não grudo muito depois
Ninguém precisa me dizer que não vai doer
mas eu ainda tenho que me botar para dormir
- diga-me "boa noite", amargo amor,
que as coisas boas se levantam rápido:
no último gole, elas bebem o escuro todo
pra eu me cansar dessa vida
de ir me embora sem mais -
que eu fique ao menos
até o fim da garrafa
- Qualquer coisa, eu te conto
uma história muito bonita
e você finge que eu não sei meu lugar
e que eu não grudo muito depois
Ninguém precisa me dizer que não vai doer
mas eu ainda tenho que me botar para dormir
- diga-me "boa noite", amargo amor,
que as coisas boas se levantam rápido:
no último gole, elas bebem o escuro todo
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
terça-feira, 25 de junho de 2013
Do alto da escada,
pegando todos de surpresa,
ela pára e me olha -
eu que só me queria embora -
E, sem pausa, todo aquele mundo nos toca
e cada um deve saber o que se faz
para se ir cada vez mais adiante
até que não reste nada mais do que um espasmo
que repetimos enfim como grave refrão
"Alegria, alegria"
pegando todos de surpresa,
ela pára e me olha -
eu que só me queria embora -
E, sem pausa, todo aquele mundo nos toca
e cada um deve saber o que se faz
para se ir cada vez mais adiante
até que não reste nada mais do que um espasmo
que repetimos enfim como grave refrão
"Alegria, alegria"
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Anti-Édipo
É preciso ter mais de vinte anos e rápido.
Por que o mundo é muito sério e grande
pra eu não ter lido tudo que devia ter lido até agora,
tudo isso que foi escrito durante muito mais tempo
do que eu poderia viver por inteiro com todos nós.
Mas, quem sabe, galgando a distância numa tenaz avestruz
eu não escape de todos esses franceses malucos?
Erijo o meu derradeiro nunca-mais deleuziano
aqui quando acaba o meu desconto pro cinema.
Por que o mundo é muito sério e grande
pra eu não ter lido tudo que devia ter lido até agora,
tudo isso que foi escrito durante muito mais tempo
do que eu poderia viver por inteiro com todos nós.
Mas, quem sabe, galgando a distância numa tenaz avestruz
eu não escape de todos esses franceses malucos?
Erijo o meu derradeiro nunca-mais deleuziano
aqui quando acaba o meu desconto pro cinema.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
I
Tem uma outra hora, um pouco maior do que as outras
que as palavras que eu sempre quis me vem, à beira do sonho
o qual eu sei então que será visitado por todos os outros
e nada me apavora mais do que todos os outros juntos de noite.
Todos os outros juntos me levam de lá para cá, de uma ponta
para a outra dos cantos do quarto da minha vida bem dormida,
com meu sono pesado de criança que sonha seu mal e seu monstro
e a piedade do consolo de saber que o pior não veio mesmo dessa vez.
Mas agora, e se eu acordar? Sim, chegou a hora e eu abro a porta...
que as palavras que eu sempre quis me vem, à beira do sonho
o qual eu sei então que será visitado por todos os outros
e nada me apavora mais do que todos os outros juntos de noite.
Todos os outros juntos me levam de lá para cá, de uma ponta
para a outra dos cantos do quarto da minha vida bem dormida,
com meu sono pesado de criança que sonha seu mal e seu monstro
e a piedade do consolo de saber que o pior não veio mesmo dessa vez.
Mas agora, e se eu acordar? Sim, chegou a hora e eu abro a porta...
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