terça-feira, 25 de junho de 2013

Do alto da escada,
pegando todos de surpresa,
ela pára e me olha -
eu que só me queria embora -

E, sem pausa, todo aquele mundo nos toca
e cada um deve saber o que se faz
para se ir cada vez mais adiante
até que não reste nada mais do que um espasmo
que repetimos enfim como grave refrão

"Alegria, alegria"

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Anti-Édipo

É preciso ter mais de vinte anos e rápido.
Por que o mundo é muito sério e grande
pra eu não ter lido tudo que devia ter lido até agora,
tudo isso que foi escrito durante muito mais tempo
do que eu poderia viver por inteiro com todos nós.
Mas, quem sabe, galgando a distância numa tenaz avestruz
eu não escape de todos esses franceses malucos?

Erijo o meu derradeiro nunca-mais deleuziano
aqui quando acaba o meu desconto pro cinema.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

I

Tem uma outra hora, um pouco maior do que as outras
que as palavras que eu sempre quis me vem, à beira do sonho
o qual eu sei então que será visitado por todos os outros
e nada me apavora mais do que todos os outros juntos de noite.

Todos os outros juntos me levam de lá para cá, de uma ponta
para a outra dos cantos do quarto da minha vida bem dormida,
com meu sono pesado de criança que sonha seu mal e seu monstro
e a piedade do consolo de saber que o pior não veio mesmo dessa vez.

Mas agora, e se eu acordar? Sim, chegou a hora e eu abro a porta...

Damages

No sonhar de todos os dias, não lhe falta muito
para dar um passo a mais, como quem vai só ali
e todas aquelas ruas na mesma noite colidem.
Isso não faz muito barulho, é claro.
Mas se eu puder lhe fazer pensar
um pouco mais nisso tudo aqui,
talvez, você não vá embora tão cedo
e eu possa me demorar mais no seu colo.
Só porque tem qualquer coisa de terrível ali no canto
e está tão escuro que nós só teríamos
que fechar os olhos um pouquinho mesmo
para nos perdemos numa noite grande e de vingança
mesmo que sozinhos um do outro, como quem descansasse

sábado, 16 de março de 2013

Estava me pondo a vida em procissão
quando decidi um jurar solene para mim:
livre de caprichar minha vida em belas-letras,
bastou-me o outro lado da porta
para avistar, há umas poucas quadras,
o meu mundo de sonhos e fadas
e eu, transmutado, num príncipe encantado

Cioso de sombra e sala,
tenho que esconder o preto da escrita
no branco da tela em que a pinto


Hoje, todo mundo escreve.
e ninguém me pediu permissão

segunda-feira, 11 de março de 2013

Com a cautela que até então só dispensava para
o melhor dos seus dias e suas noites em campanha,
ele mirou no profundo do abismo empoeirado
daquela noite tão qualquer e dada a nós e voltas
e pensou, que por um prodígio de bondade,
algo existiu fugaz, mas certo, no mundo à sua volta.

"Talvez, por agora, nada do que eu tenha vivido
tenha vivido antes ou depois do agora;
- posso ser livre de um passado que não me deixa jamais?
Sim, pois posso viver da escrita e canto alheio
e me demorar os olhos, o corpo, nalguma tarde aí,
como quem não sente prazer com o que sabe ser bom"

Não muito distante de um lugar ruim, ele deu meia volta
e brincou em seus passos de dança e de troça.
Algo qualquer de ameaçador passara raspando por seus cabelos,
mas não sem lhe prestar a devida homenagem.

Assim fazem os deuses subterrâneos e minúsculos,
que vivem terríveis no correr do vento
que tomam para si um acaso ou coincidência
para neles incidir sobre a sua maravilha e milagre
- que lhes roubam os homens sem saber do dom.